Na Minha Opinião, Homofobia É Uma Puta Viadagem

Publicado: 25/05/2011 em Lá vai a mousse!
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Impossível não tocar nesse assunto com toda a azáfama que a votação da PLC 122 (projeto de lei que criminaliza a homofobia) está causando. Acabei de ver pela TV a primeira “cerimônia” de união estável em Curitiba, entre Toni Reis e David Harrad, figuras quase lendárias e sempre presentes na mídia, juntos há 21 anos (uma estabilidade matrimonial de dar inveja a muitos heterossexuais, incluindo este escriba), e fiquei sinceramente comovido. Ao mesmo tempo, nunca ouvi tanta besteira, tanta coprolalia por parte da versão tupiniquim das Concerned Mothers Of America – de ambos os sexos e de todos os estratos sociais.

Que porra de sociedade é essa em que vivemos, que é mais tolerante com traficantes, assassinos e ladrões do que com pessoas de bem que decidem dar o que é delas para quem elas bem entendem? Bem, tenho certeza, ninguém quer ler uma análise psicossociológica do fenômeno, mas como o blog é meu e eu escrevo o que quero aqui, é exatamente isso que segue abaixo.

Por que os gays incomodam tanto? (Usando gays, homens homossexuais, só à guisa de exemplo; o mesmo se aplica às outras letras da sigla LGBTT. De qualquer forma, acho que os gays ainda são os mais discriminados.) Porque “forçam” as pessoas a rasgar o véu da hipocrisia da nossa sociedade de aparências e pensar naquele infame urso branco – o sexo. Ninguém aguenta conviver com a ideia de que o chefe de Estado, o presidente da multinacional, a prima ballerina, a flautista da orquestra, o pastor evangélico, o padeiro, a tiazinha da faxina de vez em quando tiram a roupa e ficam esfregando suas zonas erógenas em alguém até que fluidos corporais são ejaculados e/ou preenchem as mais variadas cavidades e orifícios de seus corpos. Que coisa nojenta! E um gay, por definição, é um ser sexual – a alcunha induz a mente a pensar em sexo, e sexo que foge à norma, ainda por cima.  Um homem hetero não carrega em sua denominação o peso de sua vida sexual. Ninguém pensa nisso ao olhar para ele. Tudo isso fica oculto, esquecido, intocado, à disposição da nossa excitável imaginação só quando necessário. Os gays são vistos como seres sexuais a qualquer hora e em qualquer lugar. Ai, como vou pegar na mão de uma criatura dessas? Ele tava segurando um pinto agora há pouco!

Essa percepção distorcida fica bem evidente no temor que a convivência com um homoafetivo (só pra usar um termo meigamente correto) inspira: E se ele me paquerar?, pensa o heterossexual acuado. O filho da puta não pega nem gripe, não dá tesão nem num pernilongo, mas é só chegar perto de uma inocente bichinha que o desgraçado acha que virou o Brad Pitt! Irresistível! Ele será estuprado! Como a biba pode resistir?!

Tá, mas é contra a natureza! (Ouvi essa imbecilidade hoje na TV.) É errado. O certo é homem com mulher, mulher com homem. Bem, biologicamente, o certo para o homem é sair na rua e pegar a primeira menina de 13 anos que o atrair, logo após a menarca, montar em cima dela e engravidá-la. Melhor ainda se puder fazer isso com várias meninas, pra espalhar bem o seu material genético.  Aliás, deveríamos todos andar nus, pra facilitar essa tarefa reprodutiva. Esse negócio de usar roupas é totalmente antinatural.

E aí? Vamos começar a fazer o que é certo, então? A lei que criminaliza a pedofilia está tão errada quanto a lei que criminaliza a homofobia. Não é natural! É contra a natureza, gente!

Aqui vai um recado para quem está ouriçado com a PLC 122, perdendo o sono com a “cartilha gay” distribuída nas escolas ou se coçando por causa das possíveis “más influências” sobre as criancinhas: vamo caçar o que fazer, putada? O que eu me lembro da minha passagem pelo que então se chamava de ginásio, da 5a. à 8a. série (numa época, diga-se de passagem, em que a bandalheira era muito menor, a pornografia não estava ao alcance de todos em qualquer computador, e pra gente vislumbrar uma vagina  – na verdade, um chumaço de pelos do tamanho de um poodle, não dava pra ver nada – alguém precisava contrabandear umas revistinhas mal impressas pra dentro da sala de aula), o que eu me lembro dessa época, eu dizia, é que se ouviam, se falavam, se viam, se escreviam e em alguns casos até se praticavam indecências muito maiores do que qualquer coisa que a famigerada “cartilha gay” possa conter, e isso não impediu quem tinha de ser hetero de continuar hetero, quem tinha de ser gay de virar gay, certas meninas de serem promíscuas e outras de serem mais recatadas, e por aí vai. Assim caminha a humanidade. O  porcentual de bichas loucas  no mundo, historicamente, é igual ao porcentual de idiotas: é uma constante, não muda. Hoje em dia parece que tem mais porque elas não ficam  se escondendo no armário; vão todas pra Paulista fazer bagunça uma vez por ano.

Falando nisso, outra incongruência: todo mundo condena a Parada Gay, que dura só um dia e onde no máximo rolam uns beijinhos na boca, mas ninguém fala mal do Carnaval, que é quase um mês de putaria de todos os tipos, não só homo, mas hetero, bi, tri, trans e pansexualismo levados ao extremo! Por favor neh? Vamos parar com a hipocrisia, seus cu-de-burro! Vão tudo trabalhar na construção civil! Vão carregar bloco e amassar barro o dia inteiro pra não sobrar energia pra ficar especulando o que as bicha faz na cama! Ouviu, seu Bolsonaro? Tá com medinho que os filhinhos possam ser “influenciados” na escola? Ui, que meda! E se eles derem o rabo e gostarem? Não põe a mão no fogo pela sua prole não? Com certeza, então, o nobre deputado já deve ter sentido uma coceirinha suspeita no pandeiro, e tem medo que os rebentos soltem a franga que a duras penas o senhor ainda consegue segurar. Deixa os moleque dar a bunda e ser feliz, seu Bolsonaro! (Obs.: os erros de concordância neste parágrafo são minha singela homenagem a outra cartilha  infame que esteve em evidência esta semana. Mas prometo que não faço mais.)

Só um esclarecimento final: eu me considero razoavelmente tolerante, mas não acho atraente, excitante ou esteticamente satisfatório ver dois homens se beijando. Procuro evitar  focar muito a atenção quando presencio um beijo gay,  e se não evitasse, talvez tivesse até que admitir que a cena me causa uma leve repulsa. Só que essa repulsa nem se compara com a profunda náusea, a revolta estomacal que sinto  nas entranhas quando ouço alguém dizer que os gays deveriam morrer, que a AIDS é um castigo divino e outras bestialidades do gênero. Então, se homens se beijando causam desconforto às pessoas que vomitam tais absurdos, eu quero mais que eles se beijem, mas se beijem muuuuito em público. E só não agarro um bigodudo e dou um beijão porque aí já é pedir demais, hehe.

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comentários
  1. LQ disse:

    “E só não agarro um bigodudo e dou um beijão porque aí já é pedir demais, hehe.”
    Será? HAUHAUHAUHAUAHUAHA

  2. D. Florinda disse:

    Essa forma de encarar as coisas realmente as torna mais naturais. Embora eu não me considere preconceituosa,(aliás, a maioria das pessoas não se autodenomina desta forma), em uma determinada situação quando cantada por uma lésbica comecei a repensar meus conceitos e perceber o quanto ainda era arcaica em relação ao assunto e assumia a postura, “não sou preconceituosa desde que não mexam comigo”.
    É frustrante parar para pensar o quanto ainda preciso me “des envolver” (no sentido etimológico da palavra), dar um passo para trás e colocar em quarentena, ou seja, em suspensão alguns conceitos para visibilizar o invisibilizado, (aliás acho a teoria fenomenológica perfeita para nos ajudar a despir-nos de “pré-conceitos”), afinal ser da espécie humana não é condição para ser humanizado, ainda temos tanto a caminhar, o que me tranquiliza um pouco é saber que muitos já estão lá na frente em determinados aspectos (você por exemplo).

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