Estamos Assistindo À Morte Da Narrativa?

Publicado: 29/07/2011 em Baú

Meu sobrinho tem 18 anos, é um rapaz inteligente, começou a trabalhar recentemente e outro dia confessou que só lê “livros técnicos”. Acho esse desinteresse pela literatura bastante previsível, no caso dele. O que me surpreendeu foi saber que ele também perdeu o interesse por filmes – agora prefere jogos de computador. Eu já havia notado que quando o chamo para ver algum programa de TV aqui em casa – algo que ele não faria de moto próprio, mas topa nesse caso motivado também, acredito, pela companhia – ele não vê TV passivamente, mas em geral fica twittando ou interagindo com seu smart phone, e a TV desempenha um papel um tanto aural ou secundário.

Por que estou falando disso? Bem, a TV já foi muito demonizada por ser apassivadora, massificante, opressiva – chamada de máquina de fazer doido, derretedora de cérebros… E o advento da Internet, principalmente da Internet 2.0, foi saudado como uma excelente alternativa ao papel passivo ao qual a TV nos condenava havia décadas – agora podemos interagir, participar, criar conteúdo e apresentá-lo em tempo real, em vez de apenas absorvê-lo. Mas vamos parar pra pensar: se por um lado a TV insiste em nos entupir diuturnamente com o pior da produção dramática/jornalística/sensacionalista, virtualmente injetando em nossos cérebros o conteúdo, também acontece, em raros e notáveis casos, dessa “injeção” ser de algum conteúdo que vale a pena: bons filmes, boa teledramaturgia, documentários interessantes.

Pensando nisso, surgiu-me na mente a seguinte pergunta: a tão festejada e onipresente interatividade à qual temos cada vez mais acesso não estaria nos desavezando de forma irreversível do processo de doutrinação, no sentido mais amplo da palavra? Sei que estou usando um termo carregado de um peso ideológico negativo, principalmente levando em conta que estou falando da grande vilã, a TV. Mas acho que ninguém negará que existe, sim, conteúdo que vale a pena absorver passivamente. Não esqueçamos que a TV é um filhote do cinema, e eu nunca ouvi alguém malhar o cinema por ele ser apassivador e massificante. O cinema é revestido por uma aura de nobreza que é negada à TV – porém ele já foi usado (eficazmente) para fazer propaganda nazista no Terceiro Reich, por exemplo.

Eu acho que está surgindo uma geração com uma impaciência intrínseca para a narrativa, para a ficção em todas as suas formas, a não ser que essa ficção permita uma interatividade que eu, como rato de biblioteca, cinéfilo e até apreciador da “boa” TV, acho espúria. Outro dia, aliás, eu disse isso mesmo, com outras palavras, ao meu sobrinho, quando ele me mostrou, entusiasmado, um jogo de ação especialmente “realístico”. Eu disse que as partes que eu achava melhores nesse tipo de jogo eram justamente as apresentações das diversas fases, aquelas partes que mostram uma “historinha” antes do jogo propriamente dito começar (e que os gamemaníacos inveterados odeiam e invariavelmente pulam). Falei algo do tipo: Quando eu quero ver algo como isso aí, vejo um filme de ação, com a vantagem de que não preciso ditar o que vai acontecer usando um joystick ou o teclado!

Por que digo que essa interatividade é espúria? Porque é preciso admitir que não somos todos gênios ou virtuosos, e a arte sempre se baseou na apresentação do gênio, do talento de quem o tem a uma plateia. Onde estaria a graça, para alguém que espera ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven, em entrar no teatro e não encontrar nenhuma orquestra, apenas os instrumentos, e ter livre acesso a eles, para que o próprio público suba ao palco e os toque? Pode até ser uma experiência interessante, mas eu não iria querer repeti-la indefinidamente.

Espero continuar podendo desfrutar, passivamente, sim, da produção artística daqueles que considero mais talentosos do que eu. Escrever este blog é muito bom, mas ler John Irving, Italo Calvino, Charles Dickens, Nabokov, Alan Moore, Saramago, Shakespeare, etc., sempre será muito melhor.

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