Reflexões De Virada De Ano

Publicado: 01/01/2012 em Baú

Li um texto de Baudelaire na parede do banheiro da faculdade de Jornalismo da ECA-USP que me marcou muito. O texto girava em torno da seguinte ideia: Embriagai-vos! É preciso estar sempre ébrio. De vinho, de poesia ou de virtude, o que melhor vos aprouver.

Isso parece dividir a humanidade em três tipos de indivíduos: os hedonistas (ou cínicos), os estetas e os virtuosos. Claro que todos temos características de cada um desses tipos, em maior ou menor grau, que se sobressaem conforme as situações que vivemos. Mas a que casta pertencemos preponderantemente? A mim com certeza não cabe o rótulo de virtuoso. Tampouco me considero hedonista (ou cínico) ao extremo. Acho que sou um esteta por excelência. E o esteta, dos três, me parece um tipo que funde características dos dois outros.

Vou me aprofundar um pouco na descrição desses tipos, porque imagino que a coisa possa ser menos óbvia para alguém que não tenha lido o texto de Baudelaire há um par de décadas e desde então, como eu, tenha usado, consciente ou inconscientemente, esse tríptico para definir as multifárias manifestações da condição humana. O hedonista não precisa de muita explicação, talvez só de uma definição da abrangência do termo. Para mim, todo materialista é também um hedonista (por isso a opção de chamá-lo também de cínico – numa acepção mais ampla do que a mera referência à homônima corrente filosófica grega ou à origem, er, canina do nome). É alguém que se vale das leis naturais para estruturar sua visão do mundo, o que me parece um contra-senso (contrassenso? bah), pois considero a racionalização incapaz de produzir qualquer estrutura natural. Pensar em algo é interpor necessariamente a esse algo uma camada cognitiva, uma interpretação artificial. O virtuoso é alguém que encontra na virtude, no bem, a utilidade e a justificativa da transcendência humana sobre o mundo natural, e consegue se valer disso para nortear suas ações e pensamentos. Baudelaire dizia que é preciso estar sempre ébrio. Um hedonista se embriagaria de vinho, naturalmente. Um virtuoso, de virtude. E o esteta? O esteta é alguém que consegue se embriagar de poesia.

Vamos expandir o que Baudelaire resumiu tão brilhantemente em seu texto. Vinho são todos os prazeres materiais, não só os óbvios, mas também o prazer de se sentir intelectualmente superior ou poderoso. A virtude é a aplicação, a observância dos próprios valores. Um hedonista pode se transformar em virtuoso se encontrar algo que justifique a negação de seus impulsos simplistas – por exemplo, se se apaixonar por alguém ou algo e começar a fazer sacrifícios por essa pessoa/coisa/ideia. A poesia é a beleza, e a beleza é uma invenção humana ou divina: pouco importa para a definição de estética qual seja a sua origem.

Eu tinha algumas ideias bem claras que queria colocar aqui, mas foi começar a escrever e me embananei todo. Quanto mais escrevo, mais confuso o texto fica. Vou parar por aqui. Se conseguir desfazer a maçaroca mental depois, vou terminar. Agora deu uma preguiça desgraçada. Não é a maneira ideal de começar o ano, masss…

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comentários
  1. D. Florinda disse:

    No Preâmbulo do livro que estou lendo: Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, o seguinte parágrafo me despertou interesse:
    “Toda virtude é um ápice, entre dois vícios, uma cumeada entre dois abismos: assim a coragem, entre covardia e temeridade, a dignidade, entre complacência e egoísmo, ou a doçura, entre cólera e apatia … Mas quem pode viver sempre no ápice? Pensar as virtudes é medir a distância que nos separa delas. Pensar sua excelência é pensar nossas insuficiências ou nossa miséria. É um primeiro passo, o resto é para ser vivido. No entanto, a reflexão sobre as virtudes não torna ninguém virtuoso; em todo o caso é evidente que não poderia bastar para tanto. Todavia há às vezes uma virtude que ela desenvolve: a humildade, tanto intelectual, diante da riqueza da matéria e da tradição, quanto propriamente moral, diante da evidência de que algumas virtudes nos fazem falta e de que, entretanto, não poderíamos nos resignar à sua ausência nem nos isentar de sua fraqueza, que é a nossa”.
    O autor também aponta que das virtudes, quase não se fala mais, mas que isso não significa que não precisemos mais delas, nem nos autoriza a renunciar a elas. Spinoza dizia que é melhor ensinar as virtudes do que condenar os vícios. É melhor a alegria do que a tristeza, melhor a admiração do que o desprezo, melhor o exemplo do que a vergonha. Cada ser precisa ser seu próprio mestre e seu único juiz. Com que objetivo? Para ser mais humano, mais forte, mais doce. Virtude é poder, excelência, é exigência. As virtudes são nossos valores morais, mas encarnados, tanto quanto pudermos, mais vividos, mas em ato.

    (Bem, agora vou parar porque estou com ressaca, disse aí que a gente tem que se embriagar e eu acabei seguindo ao pé da letra esses conselhos, vou cuidar da minha dor de cabeça rsrsrsrs)

  2. D. Florinda disse:

    Olha só, tenho o texto dele na minha agenda 2012, vou postá-lo aqui:

    Embriaguem-se

    É preciso estar sempre embriagado.
    Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

    Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

    E se, por ventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

    Baudelaire

    (Estou curiosa para ler sua brilhante conclusão do raciocínio, espero que não demore).

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