Reflexões De Virada De Ano – Parte 2

Publicado: 10/01/2012 em Baú

Okay, acho que consegui organizar as ideias. Só que enveredei por uma tangente de cunho filosófico-religioso e fugi totalmente do assunto. Acho que vai ter a parte 3…

Cínicos, estetas e virtuosos. Cada categoria com sua visão distinta e diferente da realidade e da condição humana. Vou confessar uma coisa: eu não tenho nenhuma paciência para a pretensa superioridade intelectual de alguns (quase todos) cínicos/hedonistas/materialistas. O modo como a fé alheia parece ofender certos (quase todos) ateus, como se sua inteligência fosse insultada pelo fato de que alguém pode acreditar em algo sem pedir provas, sinceramente me dá nos nervos. O pensamento científico materialista criou uma equivocada equivalência que quer estabelecer uma relação causal entre a falta de fé religiosa ou mística e a inteligência ou racionalidade.

Uma vez, numa aula de Filosofia da Comunicação (na verdade, um curso básico de filosofia incluído nas disciplinas da ECA-USP – o aposto “da comunicação” era apenas uma tentativa de justificar a existência da matéria numa faculdade de Comunicações), quando o professor Aluísio (certamente um materialista histórico e ateu) estava explicando que toda comunicação pressupunha a existência de um emissor, uma mensagem e um receptor, fiz uma pergunta com a clara intenção de provocá-lo: “E no caso de uma comunicação mediúnica? Quem seria o emissor da mensagem?” Eu esperava ser espinafrado pela intervenção inoportuna, ou então ouvir um longo discurso sobre a irrelevância das manifestações religiosas para qualquer cientista digno do pão que comia, por isso me surpreendi com a elegância da resposta do professor: “Na verdade, não posso responder isso, porque envolve uma questão de fé, e diante de questões de fé, a ciência se cala.” Eu esperava uma manifestação de arrogância, não uma resposta respeitosa. Além de surpresa, senti também uma grande admiração pelo sisudo mestre. Que, aliás, já morreu, portanto saberia agora me responder.

Na verdade, os materialistas são como os peixes, morrem pela boca no exato momento em que apresentam seu exausto (e único) argumento: a falta de provas da existência de Deus, de um plano espiritual, etc. Porque esse argumento é, na verdade, um pedido, e qualquer ateu deveria ter especial consciência de quão ridículo é, para ele, pedir que Deus lhe prove Sua existência. E não apenas por se ver na situação de fazer um apelo ao nada; ainda que o ateu em questão se dispusesse a supor, hipoteticamente, que Deus existisse e Lhe pedisse uma prova, a ausência de qualquer prova, portanto de resposta, poderia ser traduzida da seguinte forma: “A esmagadora maioria da humanidade acredita de forma inata na existência de um ser ou de uma inteligência superior, mesmo na falta de qualquer prova. Portanto, Meu sistema parece estar dando certo. E em time que está ganhando não se mexe. Além disso, por que Eu deveria Me dar ao trabalho de dedicar especial atenção justamente a uma minoria que teima em duvidar da Minha existência? Vai te catar!”

Eu disse que esse era o único argumento dos ateus, mas acabo de me lembrar de mais um, a saber: Ah, mas as mortes, a guerra, as doenças, etc. Vou preguiçosamente reproduzir, como resposta, o texto de um folheto de alguma igreja, nem sei qual e tampouco importa, que encontrei milagrosamente grudado na parede da minha sala de estar (garanto que eu não tinha esse folheto em casa) depois que uma enchente destruiu boa parte das riquezas que eu havia acumulado durante quase toda a minha vida, intitulado “Deus Existe”:

Um homem foi ao barbeiro cortar o cabelo, como sempre fazia. Ele começou a conversar com o barbeiro, e eles conversaram sobre vários assuntos.

Conversa vai, conversa vem, começaram a falar de Deus. O barbeiro disse: “Eu não acredito que Deus exista como você diz.”

“Por que você diz isso?” O cliente perguntou. “Bem, é muito simples. Você só precisa sair na rua para ver que Deus não existe. Se Deus existisse, você acha que existiriam tantas pessoas doentes? Existiriam crianças abandonadas? Se Deus existisse, não haveria dor ou sofrimento. Eu não consigo imaginar um Deus que permita todas essas coisas.”

O cliente pensou por um momento, mas não quis responder para evitar uma discussão. O barbeiro terminou o trabalho e o cliente saiu.

Naquele momento, o cliente viu um homem na rua com barba e cabelos longos. Parecia que não cortava o cabelo nem fazia a barba havia muito tempo, estava sujo e descabelado. Então o cliente voltou para a barbearia e disse ao barbeiro: “Sabe de uma coisa? Barbeiros não existem.”

O tio vai revelar uma coisa pra vocês, crianças: não acreditar em Deus não é chique. Não está na moda. Não é sinal de inteligência. Não caracteriza ninguém como mais forte, mais valente, mais realista, mais dono de si, mais pé no chão. Não é nem polêmico. Na verdade, acho que é um sinal claro de preguiça mental. E de insensibilidade também. O fato de existirem pastores charlatães ou sujeira debaixo do tapete da Santa Madre Igreja tampouco invalida a existência de Deus. Sinceridade? Os ateus são patéticos. O rótulo é ridículo. O ativismo ateísta, mais ridículo ainda. Nos EUA, associações de ateus lutam na justiça para que o Natal deixe de ser feriado nacional e para que não haja nenhuma menção a Deus em juramentos oficiais ou nas notas de dólar. Isso faz tanto sentido quanto embarcar numa cruzada sangrenta para proibir os jornais de publicarem horóscopos e renomear as constelações só porque você não acredita no zodíaco. Eles têm até uma revista, a American Atheist. Olha o tamanho da babaquice: uma revista dedicada a discutir algo que não existe, dirigida a leitores que não acreditam em algo!

Se eu fosse ateu, rejeitaria o rótulo. Aliás, se eu fosse ateu, acho que acreditaria em Deus só pra me garantir. Ninguém deveria dizer: “Eu sou ateu.” Esse termo contém o reconhecimento da divindade (“Theos” em grego) como entidade, e uma clara manifestação de oposição a ela; ou seja, reconhece a existência daquilo que não deveria existir, um Ser onipotente, e se manifesta contra Ele. Uma dupla burrice. Se Deus não existe, você não perde nada por acreditar nEle; pelo contrário, os efeitos benéficos da fé já foram amplamente comprovados, inclusive pela mais laica e materialista das ciências, a medicina. Por outro lado, se Deus existe, você fica muito melhor na fita se pelo menos acreditar nEle. Ou vai querer correr o risco de ofendê-Lo, duvidando da Sua existência, e ter que se explicar depois? Portanto, ateus, deixem de ser burros, acreditem em Deus.

A propósito: em 1995, aos 76 anos de idade, Madalyn Murray O’Hair, fundadora da associação American Atheists, que publica a revista que mencionei, foi sequestrada, junto com seu filho Jon e sua neta Robin, por David Roland Waters, ex-funcionário da associação. David e um cúmplice obrigaram os três a sacarem dinheiro de suas contas e gastaram fortunas usando os cartões de crédito das vítimas. Depois de meses sem notícias, eles foram declarados mortos e o assassino acabou preso e confessou o crime. Em 2001, ele disse à polícia que os três estavam enterrados num rancho no Texas. A polícia descobriu que os cadáveres haviam sido cortados em dezenas de pedaços com um serrote. E o capeta? Será que ele existe?

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comentários
  1. D. Florinda disse:

    Adorei a conclusão sobre o capeta, muito bom!
    Realmente, tem um povinho, (especialmente universitários com professores que se acham modernos, revolucionários e gostam de fazer uma lavagemzinha cerebral na cabecinha dos coitadinhos desprovidos de opinião própria) que gosta de espalhar aos quatro ventos que é ateu como se isso o eximisse do título de antiquado, fora de moda, etc., mas como eu disse à um ex aluno esses dias: nessa área, conselhos não são bem vindos, só a experiência individual é que vale, no momento em que você perceber que tem tudo mas continua faltando alguma coisa, o vazio permanece, você vai buscar espiritualidade. Não sei se ele não me respondeu por respeito ou porque não tinha sequer (ou se quer) conteúdo para debater rasamente sobre o assunto.

  2. John Donne disse:

    Dona Florinda, a sua opinião é tremendamente suspeita, mas agradeço os elogios. A verdade é que argumentações filosóficas pró e contra a existência de Deus me parecem cansativas e inúteis, mas certamente acho menos ilógico argumentar tentando provar Sua existência do que o contrário. Afinal, se você não acredita em algo, não basta não acreditar? Apresentar argumentos elaborados para a descrença me faz suspeitar até da própria descrença e vê-la como uma obstinada oposição. Eu nunca vi ninguém gastar muita retórica para provar a inexistência do saci pererê. A briga deles é com a religião, e isso macula a “pureza” dos seus motivos.

  3. D. Florinda disse:

    É.

  4. Apregoar ateísmo é tão raso quanto apregoar a crença: dá-se ao mundo uma questão que se quer coletiva quando esses atributos são totalmente individuais. Aliás, arrisco dizer que não há individualidade maior que a fé (ou a falta dela).

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