Saudade do Cu Doce – Parte 1

Publicado: 01/05/2012 em Baú

(Os nomes foram trocados para proteger os inocentes.)

cudoce11Eu cursei a Escola de Comunicações e Artes da USP de 1987 a… bem, fui largando matérias pelo caminho, até que a universidade se tornou um lugar para ver meus amigos e experimentar novas formas de convivência social, trabalho, lazer, relacionamentos, tudo, menos estudo. A escolha do curso de Jornalismo, que me parecera tão óbvia ao tentar o vestibular pela terceira vez (o único vestibular que fiz foi a FUVEST; para mim, a USP sendo gratuita, era a única universidade que me interessava, pois eu não me imaginava em condições de pagar por educação superior), revelou não ser a ideal.

A propósito do vestibular, na primeira tentativa, logo na primeira fase, fiquei abaixo da nota de corte para o curso pretendido (Comunicação Social, que na época englobava o curso de Jornalismo). Na segunda, prestei para Filosofia (nota de corte bem menor) e passei na primeira fase! Estudei loucamente nas poucas semanas até as provas da segunda fase e… bombei, e logo por causa de redação, eu, um aspirante a escritor/jornalista! Cometi, por ignorância, o erro mais imperdoável numa prova de redação: fugir do tema. Levei nota 2.0. Na terceira vez, resolvi investir meu tempo e meu suado dinheirinho num cursinho semi-intensivo (uns 4 meses de aulas) no Objetivo. O esforço deu resultado: passei no curso de Jornalismo, que agora era uma carreira em separado no vestibular, e cuja nota de corte havia subido! É verdade que passei raspando; tirei 0,6 em Matemática e fui o penúltimo da lista. Mas o importante é que entrei! Ah, e com nota 9,0 em redação 😀

Eu tinha ouvido histórias de terror sobre os temíveis trotes e humilhações a que eram submetidos os calouros… quanto mais difícil o curso, mais selvagem e brutal o trote… mas descobri, para meu grande alívio, que a ECA tinha uma postura histórica contrária aos trotes violentos. No primeiro dia de aula, uma promessa instigante: os calouros assistiriam ao filme Je Vous Salue Marie, de Jean-Luc Godard, uma sensação polêmica na época, porque retratava Cristo na atualidade, como filho de um taxista e uma prostituta. Lembrem-se, crianças, isso foi antes do surgimento da Web e da ubiquidade da informação. O próprio videocassete mal começava a dar as caras. O filme em questão chegara a entrar em cartaz, mas fora proibido pelo então alcaide da cidade de São Paulo, o falecido Jânio Quadros. Portanto, seria uma grande transgressão e aventura ver o filme maldito e proibido logo no primeiro dia de aula (na primeira semana de aulas, sabe-se lá por que, nenhum professor se apresentava para lecionar).

Fui chegando e seguindo a turma de incautos calouros que se dirigiam para a sala-anfiteatro onde aconteciam as Aulas Magnas (aulas do curso básico que eram ministradas a vários cursos ao mesmo tempo, por isso numa sala maior). Chegando lá, o que vimos foi um grupo de veteranos (ou seres extraterrestres, talvez de outras unidades da USP) fazendo baderna. Nada de filme. Uma moçoila exibia os peitos rebolando sobre uma mesa (eu veria essa figura fazendo topless em vários outros lugares da USP nos anos seguintes). Um ser punkiforme de cabelo raspado e óculos fundo de garrafa (outra figurinha carimbada que eu veria muitas outras vezes) gritava frases desconexas tenuemente ligadas ao que nos trazia ali (o filme de Godard). Seria aquilo o tal trote não-violento? Confesso que fiquei tão decepcionado que cheguei a desejar um trote mais convencional, com corte de cabelo e tudo.

Passada a desilusão inicial, começou a fase das experiências e descobertas. Foram tantas…

Meu amigo Enzo me apresentando às novidades musicais americanas e europeias (outra coisa de difícil acesso naqueles tempos sem Internet): ele me mostrou uma pasta com xerox de artigos de jornais e revistas sobre grupos como Joy Division e Smiths, que teriam sido trazidos da Europa pelo lendário Pepe Escobar, crítico musical da época que ia para lá e contrabandeava para o Brasil o que de mais novo havia na cena musical londrina…

Acordar na maior rebordosa no apê desse mesmo Enzo (ele morava pertinho da USP com um colega, sua família era de Piedade, interior de São Paulo, então era o lugar natural para desabar ao sair de uma das muitas festas de sexta-feira), quase meio-dia de sábado, ao som de Georgia Satellites ou Lloyd Cole & The Commotions em vinil, na vitrolinha que tocava no chão da sala despojada da morada minimalista… e surreal: da janela se via uma obra próxima, cujos pedreiros usavam despreocupadamente um banheiro ainda em construção, sem paredes e sem teto. Você acordava, ia dar bom dia ao sol e dava de cara com um nego peladão fazendo força no vaso ou se ensaboando no chuveiro. Aí saíamos pela Vital Brasil à procura de um frango de padoca, direto da televisão-de-cachorro para nossas esfaimadas (e laricosas) mandíbulas. Aquele era o nosso café da manhã. Ah, bons tempos… aquela vida inconsequente, como diria meu grande amigo Aderbal (o da banca de jornal)… éramos jovens, o mundo era nosso e tínhamos todo o futuro pela frente…

A reabilitação do centro acadêmico da ECA é uma empreitada coletiva da minha época que ainda acho digna de suscitar orgulho. A ECA era uma escola tradicionalmente “desencanada” em matéria de atividades sociais institucionalizadas (por isso a indigência do “trote”, ou melhor, da recepção aos calouros). O que nossa turma fez foi:

a) Eleger uma diretoria para o centro acadêmico – numa eleição de chapa única, é verdade, mas o referendo era importante para legitimar a gestão do nosso “líder” acidental, Ronaldo (sósia do ator e diretor britânico Kenneth Branagh que depois iria fazer carreira na BBC Brasil, em Londres).

b) De cara, enfrentar uma missão cabeluda: mobilizar a USP toda em defesa dos cursos noturnos, ameaçados de extinção pela reitoria aburguesada e elitizante (olha o espírito do universitário politizado se manifestando, hehe). Essa mobilização foi triunfante e memorável. Começamos com uma participação maciça e intensa de todos os alunos da ECA, não só do período noturno. Lembro de uma assembleia da qual participaram centenas de alunos; éramos tão delirantemente democráticos que achávamos possível decidir tudo numa reunião daquele tamanho, dando voz igual a todos; tinha que virar bagunça. No meio da gritaria, “naturalmente”, “organicamente”, montou-se um palanque ao qual um grupo subiu, alguém providenciou um microfone e equipamento de som… foi muito legal presenciar a liderança e a hierarquia política surgindo ali, como em qualquer aglomeração humana. Só que a gritaria e a discórdia continuavam, todos queriam ser ouvidos, ninguém se entendia, e eis que a Virginie, um fiapo de fadinha loirinha que andava com pedras no bolso pro vento não levá-la, filha de franceses, e que estava vivendo uma anacrônica fase flower power (sabe a Phoebe do seriado Friends? Tal e qual), pediu a palavra para dizer o seguinte: “Gente, eu acho que os ânimos estão muito exaltados, então proponho uma sessão de alongamento pra gente relaxar…”



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comentários
  1. Hilário! Convexo! Plural! Como tudo que você escreve, meu caro!

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