Saudade do Cu Doce – Parte 2

Publicado: 24/05/2012 em Baú

(Os nomes continuam trocados para proteger os inocentes.)

Lembro que o Enzo, que já mencionei, estava presente nessa reunião, mas quando um dos muitos “oradores” no palanque improvisado tomou a palavra, ele levantou e disse: “Vou embora.” Perguntei: “Mas por quê?” E ele respondeu: “Desculpa, não dá. Não vou ficar aqui ouvindo um cara que usa chapéu de lambateria!”

Alguns exemplos de chapéu de lambateria.

Esse Enzo é uma figura, uma das pessoas mais inteligentes e cultas que conheço (se não for a pessoa mais culta).  Ele também é o que os anglófonos chamam de opinionated: tem suas opiniões e não abre mão delas, mesmo respeitando as alheias. Ávido leitor, é a única pessoa que conheci até hoje capaz de 1) sempre ler os livros que lhe são emprestados (convenhamos que isso de emprestar livro, “leia, você vai adorar”, é como empurroterapia de farmácia, extremamente antiético e arriscado para quem aceita), 2) devolver um tomo dizendo que não gostou depois de tê-lo lido até o fim (sem xingar quem o emprestou) e 3) ainda encontrar disposição para citar algum trecho que lhe agradou, só pro emprestador não ficar tão mal (eu também sempre leio os livros que ele me empresta/recomenda, mas dei mais sorte, porque até agora ele acertou em todas as sugestões). Um exemplo típico: a reação dele ao me devolver Communion, de Whitley Strieber, que me empolgara bastante na época em que foi lançado. Strieber era um escritor de sci-fi/horror de sucesso (é dele o romance The Hunger, adaptado no filme “Fome de Viver”, com David Bowie e Catherine Deneuve) quando resolveu mudar totalmente de direção literária e escrever relatos autobiográficos de seus encontros com seres alienígenas. Sua editora se recusou a publicar Communion, mas ele não desistiu, e o livro fez furor no final da década de 80. Eu o emprestei para o Enzo, e quando ele me devolveu (ah, tem esse detalhe também: ele devolve os livros emprestados), perguntei: “E aí, gostou?” E ele: “Gostei, sim.” Seguiu-se uma conversa animada sobre o livro, as passagens mais interessantes, etc., e aí eu perguntei, ou melhor, afirmei, como quem quer confirmação: “Mas então você acredita que ele se encontrou mesmo com extraterrestres.” E o Enzo (enfático): “Não! Só vou acreditar no dia que ele pegar um ET e esfregar na minha cara.” Esse é o Enzo.

Mas voltando ao item b): O  que começou como o esforço quixotesco de alguns poucos bravos passando de sala em sala e conclamando à ação os colegas, logo se espalhou pela escola como rastilho de pólvora. Visávamos a visibilidade e a polêmica, e para esse fim, usávamos táticas de impacto, por exemplo: estava acontecendo um ciclo de palestras com jornalistas famosões. Quando o convidado chegava e a palestra ia começar para uma sala cheia de ecanos, TODOS se levantavam, em silêncio, e iam embora. Os professores ficavam doidos.

Logo, o movimento começou a se expandir para além das fronteiras da ECA. Outras faculdades sentiam, também, que existia uma vontade de elitizar a USP (mais do que ela já era elitista) oferecendo cada vez menos opções de cursos noturnos e/ou de horário reduzido em favor de cursos de horário integral. Começaram a ser organizadas passeatas e piquetes com mais gente de outras unidades, o que ajudava a aumentar o vulto dessas manifestações. Numa delas, estávamos diante da reitoria, pedindo para falar com o reitor. A polícia militar mandou cavalarianos para conter as hordes assassinas, que gritavam palavras de ordem diante da barreira de gambés. Os cavalos, naturalmente, demonstravam certa inquietação com a gritaria, e aí ouvi alguém dando a perversa sugestão: “Vamos chegar mais perto.” Pois é, sempre tem alguém querendo ver o circo pegar fogo. A ideia era irritar os cavalos e provocar uma reação dos cavalarianos, que até aquele momento suportavam, impassíveis, os apupos.

Agora lembrei de um episódio que exemplifica o tipo de cabeças que formavam a cúpula da USP de então. Quem deliberava sobre a continuação ou extinção dos cursos era um órgão colegiado composto (supostamente) por representantes dos corpos docente e discente e também funcionários da universidade – o Conselho Universitário. Naturalmente, esse Conselho era mencionado a todo instante por todos e bastante citado nos canais oficiais de comunicação da universidade. Ora, qual a abreviação de Conselho Universitário, eu pergunto? Naaaaaão, não. Alguém teve a brilhante ideia de batizá-lo de CO. CO!!! Conselho Universitário, abreviação: CO! Acredite se quiser! Terá sido o mesmo gênio que sugeriu à Globo chamar o mafioso italiano Tommaso Buscetta, quando ele foi preso no Brasil e começou a ser mencionado todo dia nos telejornais, de Busqueta? Porque na pronúncia italiana o sobrenome do cara é Busheta, e na brasileira é Buceta mesmo. Caralho! Aquele puritanismo nos irritava tanto que fazíamos questão de só nos referir ao dito Conselho como CU (cê-ú), e naquele dia, na frente da reitoria, berrávamos a plenos pulmões: HU, HU, HU, PAU NA BUNDA DO CÊ-Ú! Que, além de redundante e duplamente obsceno, era bem engraçado.

Acabei indo embora antes do fim da manifestação, mas depois alguém me contou o que aconteceu. Lá pelas tantas, chegou o recado: o reitor receberia os manifestantes. TODOS eles! Os participantes pensaram: que atitude mais democrática, nem tudo está perdido. Nas palavras de quem me contou (realmente não lembro quem foi): “A gente entrou numa sala enorme com um monte de retratos de reitores nas paredes, cabia todo mundo lá, era uma coisa imensa mesmo. Daí mandaram a gente esperar pelo reitor ali. Depois de um bom tempo, caiu a ficha: eles simplesmente ‘guardaram’ a manifestação dentro da reitoria! Aposto que a função da sala enorme era essa mesmo! Bota todo mundo pra dentro, dá um belo chá de espera (não de cadeira, porque tava todo mundo de pé), e do lado de fora tudo fica normal, não tem manifestação nenhuma! Quando a gente se tocou que a intenção era essa, fomos embora.”

Uma vez, organizamos uma passeata que saiu do campus e marchou pelas ruas nos arredores da USP. Juntou-se a nós o então deputado Eduardo Suplicy. A presença dele deve ter atraído a mídia, e num dado momento passou ao nosso lado, no meio da manifestação, um carro de reportagem da Globo gravando imagens da passeata. Na hora alguém puxou um coro: “Fora Rede Globo! Globo não é povo!” Eu, muito sensatamente (ao menos me pareceu), lembrei aos manifestantes: “Gente, se vocês ficarem gritando isso, eles não vão mostrar a passeata, e não seria bom divulgar nossa luta na TV?” Pra quê! Na hora, a fúria anti-global dos filhotes de Che Guevara (que nem eram conhecidos meus) se voltou contra mim, e com olhares de ódio encarniçado (juro por Deus), eles começaram a gritar na minha cara: “Qual é?! Tá do lado deles?!” Tá bom, tá bom, não está mais aqui quem falou…

Bem, conseguimos salvar os cursos noturnos (ao menos na época) e foi um banho de cidadania e ação política para todos. Por alguns dias, nos sentimos na pele dos militantes de esquerda perseguidos pela ditadura (que na época ainda não haviam se tornado políticos profissionais) e que nós tanto admirávamos.

c) Finalmente a letra c. Alguém lembra o que eu estava enumerando? Caso não, as ações empreendidas por nós (meus contemporâneos) quando preenchemos o “vácuo de poder” estudantil na ECA, elegendo uma diretoria para o CALC (Centro Acadêmico Lupe Cotrim). O item c é o seguinte: ressuscitamos a Semana do Calouro, um ciclo de atividades culturais e trotes não-violentos para recepcionar e integrar a calourada, que, como mencionei no início da primeira parte deste relato, ficara às moscas no início daquele ano.

Essa Semana do Calouro já fora motivo de orgulho para os ecanos: a escola sempre teve postura contrária ao trote violento, só que o evento foi ficando desleixado, e quando minha turma entrou, da semana só restavam a não-violência (pela total ausência de um trote) e a festa que encerrava a semana. Quando decidimos revitalizá-la, os veteranos lembraram de um tipo de trote cultural que fazia muito sucesso, a aula-trote, uma aula fajuta para a calourada. A versão ecana dessa modalidade era uma palestra sobre cinema pornô com diretores, atores e atrizes do métier, que discursavam enquanto um monitor exibia um pornô nacional (escolhido a dedo entre os mais escabrosos), para horror dos CDFzinhos imberbes e japinhas pudicas de 16 anos que passavam de fato a vida a estudar e se esqueciam de estudar os fatos da vida (lembrem-se, crianças, isso foi muuuuuuuuito antes do surgimento da Internet – na época, o maior público da pornografia não eram os menores de 18 anos). Veteranos, alguns de idade e aparência bem convincentes, faziam o papel de diretores/atores/professores. No primeiro ano em que aplicamos esse trote, depois de nos divertirmos por um par de horas às custas da calourada, um veterano simplesmente levantou e disse: “Pessoal, isto foi um trote.” Ficou todo mundo com cara de bunda, foi um final bastante anticlimático. Percebemos, então, que seria muito mais legal não contar que era trote no final, deixar os calourinhos na sua doce ilusão e ver quanto tempo levariam para descobrir a verdade. Devo ter participado de uns três ou quatro trotes desses. Seguem alguns dos melhores momentos:

Um dos veteranos que fazia o papel de diretor, o Jester (apelido), era um cara bem engraçado e uns dez anos mais velho que o resto da turma (espero que ele me perdoe se exagerei nessa estimativa), encardidaço mesmo. Ele havia participado da versão antiga do trote cultural e falava do cinema pornô com embasamento, seriamente, convencia muito interpretando um profissional do ramo. Os veteranos presentes na plateia ajudavam na farsa, fazendo perguntas para quebrar o gelo e incentivar a calourada a participar também, e em certos momentos mágicos, a coisa se tornava realidade, começavam debates inflamados sobre o assunto, mesmo entre veteranos, que até se esqueciam por instantes de que aquilo era faz-de-conta. Foi num momento assim que Dri Suri (veterana da nossa turma de Jornalismo, que estava na plateia) tomou a palavra para rebater as afirmações de Jester, que estava defendendo a existência de uma estética na sétima arte versão XXX, e afirmava que um filme pornô podia, sim, ser uma obra de arte. Jester estava de costas para o monitor, e a Dri, ao ouvir aquilo, disse, rindo muito: “Desculpa, Jester, mas vai me dizer que isso aí é arte?” Só então ele se virou e viu o que estava passando na tela: era uma cena de suruba bissexual, um cara estava comendo uma mulher de quatro, outro montou em cima deste, e um terceiro achou adequado pegar um espanador e enfiar no fiofó do que estava no alto da pilha. Ficou aquela bunda peluda enfeitada com um penacho, subindo e descendo. O “diretor” tentou manter a seriedade, mas saiu da personagem e caiu na gargalhada.

Outro grande momento de Jester no papel de diretor foi quando, pra deixar sua interpretação mais verossímil, ele virou para o monitor e, afetando familiaridade, disse displicentemente: “Esse aí é o Jaime.” Acontece que a imagem mostrava o “Jaime” comendo uma mulher na posição de frango assado, ou seja, o que aparecia dele era, pardon my French, só o cu e as bolas. Daí alguém da plateia (acho que foi até um calouro) perguntou: Peraí, como é que você consegue saber quem é? Ao que Jester, liso como sempre, retrucou: Não, é que eu lembro dessa cena em particular porque deu muito trabalho, ele não queria fazer… Ah, tá.

Teve um ano que, não sei por que cargas d’água, me convidaram pra fazer o papel de ator pornô no trote. Eu não queria, sou tímido, uma negação pra falar em público e um desastre como ator, mas me disseram: “Não tem problema, a gente diz que você é um ator pornô italiano convidado, que não fala português. Só fica sentado lá e faz cara de safado.” Topei e foi muito divertido. Apesar da minha participação ser bastante limitada, foi muito bom ficar encarando aquelas calourinhas inocentes, posando de lobo mau. A “atriz” convidada, Alessandra, uma morena muito linda (usei esse nome porque ela era a cara da Alessandra Negrini), aluna do curso de Artes Cênicas, ganhou o sugestivo nome de guerra de Jessica Valo. A gente caprichava no figurino também: o visual que imaginávamos para uma atriz pornô, naquela época, era mais ou menos o mesmo que qualquer funkeira “de respeito” usa hoje em dia.

Como eu disse, não revelávamos mais aos calouros que se tratava de um trote, e meses depois, já amigo dos novatos, adorei quando eles me contaram que ficaram chocados ao verem, na festa de recepção aos calouros que acontecia na sexta-feira, os “atores” e “atrizes” convidados no meio dos alunos, conversando com todos. Como na Semana do Calouro não tinha aula, eles só nos viram de novo na festa, e comentavam uns com os outros: “Olha lá, é aquele ator pornô da palestra! O que o cara tá fazendo aqui? Agora ele vai ficar frequentando a escola? Que folgado!”

Por falar em festas, nós as organizávamos também. Lembro que uma vez passei uma tarde inteira com alguns amigos preparando fitas (sim, fitas cassete) com músicas escolhidas a dedo. Deu um trabalho puto, mas quando pusemos pra tocar, com a festa já lotada, a pista de dança continuou… vazia. Alguns amigos se prontificaram a ficar pulando feito pererecas ao som de nossa seleção de excelente gosto (Lloyd Cole & The Commotions, David Bowie, The Cure, Style Council, tudo o que venerávamos na época), mas a isca não surtiu efeito. Tentamos isso em algumas festas, sempre sem êxito, e o que mais irritava era que invariavelmente aparecia o Sérgio, self-made DJ, dizendo: “Tenho aqui com uma fita que acabei de receber, é um som que bombou nas danceterias de Nova York semana passada, vocês não querem tentar pôr?” Pensávamos: “Tá, ninguém quer dançar as nossas músicas, que todo mundo conhece e gosta, e esse cara acha que vai salvar a festa com essas novidades dele que ninguém nunca ouviu! (Repito, ainda não existia Internet.) O pior é que depois de vários pedidos insistentes do cara, já desesperados, acabávamos cedendo, ele punha a tal fita no tape deck e… milagre: a pista enchia na hora, as pessoas se acotovelavam, dançavam até cair. Não era possível, ele devia combinar aquilo com a galera só pra derrubar a gente.

Depois, havia o problema inverso: quando já era alta madrugada e a gente queria encerrar a festa e meia dúzia de teimosos, mamadaços, insistiam em ficar chacoalhando o esqueleto. Pra isso havia um remédio infalível: Jamelão. Mais precisamente, Jamelão cantando “Ela disse-me assim”, de Lupicínio Rodrigues:

Ela disse-me assim/Tenha pena de mim/Vá embora

Vais me prejudicar/Ele pode chegar/Está na hora

Era só repetir esse hino da fossa algumas vezes que todo mundo vazava. Essa melodia ficará para sempre associada, na minha memória, a fins de noite melancólicos, quando eu ajudava a encerrar as atividades e ia esperar, zonzo de sono e de excessos, o primeiro ônibus, na contramão das pessoas “normais” que iam para o trabalho.

Acho que hoje a universidade perdeu essa atmosfera de gueto cultural, de foro de novas experiências e descobertas. Nesta era do excesso de informação, está aí, à disposição de todos, tudo o que na época era exclusividade do nosso reduto para poucos privilegiados. As redes sociais permitem polinizar outros que têm nossos interesses e afinidades, mesmo a distância, sem a necessidade do ateneu como catalisador.

Posso ser tachado de nostálgico, mas acho que tudo ficou mais banal.

Ah, sim: ao lado da entrada da biblioteca havia um balcão alto de aço inox, que um velho ambulante usava durante o dia para expor as guloseimas que trazia em seu carrinho. No fim da tarde ele ia embora, e ao escurecer, nós, criaturas da noite, íamos chegando antes das aulas e gravitando para esse balcão, onde sentávamos para conversar, discutir, namorar, conviver, viver. Era perfeito, acomodava até umas 15 pessoas e dava pra sentar e balançar as pernas. Esse pedaço da topografia ecana (que nem sei se ainda existe) foi testemunha das dores e alegrias de gerações de alunos da escola por onde passaram, só para citar os hoje mais famosos, Soninha Francine, William Bonner (que antes de ser globalizado atendia por William Bonemer Jr.), Marcelo Rubens Paiva, Regina Volpato, Paulo Ricardo, José Roberto Torero e muitos outros.

E como o tal balcão servia de apoio para os doces do velho durante o dia e para os nossos traseiros à noite, alguém, que jamais vou saber quem é, mas que obviamente é um gênio, resolveu batizá-lo de CU DOCE.

O Cu Doce em seu melhor uso.


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comentários
  1. Escobar disse:

    Rico. E hilário. Agora, terminando meu curso de história à distância (diz-se EaD), fico ruminando de raiva, porque a formação (se há), é fuinha da silva… fraca e sem a possibilidade de articulações, políticas, sociais ou culturais. A geração 2.0 está fadada à solidão?

    • Caro Escobar, como todas as outras maravilhas da modernidade, a democratização do ensino e da informação também cobra seu preço. A geração 2.0 está fadada a um tipo peculiar de solidão, acompanhada, comentada, compartilhada, cutucada, twittada. Daqui da minha solidão saúdo a tua, em plena era da amizade a distância.

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