O Passado Presente: Mistérios Da Infância Revelados (40 Anos Depois) – A Permanência Da Memória Auditiva – Audioarqueologia Acidental – A Segunda Guerra Revisitada

Publicado: 06/08/2012 em Baú

Quando eu tinha seis ou sete aninhos (ou seja, uns 40 anos atrás) e morava na Itália, meu pai comprou um gravador cassete. Como o da foto abaixo, ele tinha um botão redondo de fogão no meio para selecionar as funções Rewind, Stop, Play ou Fast Forward, e um botão de pressão, de alarmante cor vermelha, exclusivamente para a portentosa função Rec.

Para gravar, era preciso girar o botão redondo até a posição “Play” e ao mesmo tempo apertar o botão vermelho “Rec”. O autor do blog de onde retirei a foto acima escreve que a lembrança que ele tem da operação de um aparelho parecido com esse numa idade bem tenra, mais do que visual, é táctil: o esforço necessário para apertar os botões “Play” e “Rec” ao mesmo tempo, a dificuldade para travar o aparato puramente mecânico que dava início à gravação, e a memória da dor latente causada pelo ocasional uso de força excessiva na manobra. Minhas lembranças mais vívidas do uso do gravador são exatamente iguais.

Apesar disso, aos meus olhos de então, o aparelhinho era um milagre da tecnologia correspondente ao que um tablet deve representar para uma criança de hoje. O gravador nunca foi oficialmente “meu”, era de toda a família (na época, praticamente não existia o conceito de aparelhos eletrônicos “pessoais” – ninguém dizia “minha TV” ou “meu rádio”, a não ser que fosse solteiro e morasse sozinho), mas até que eu o monopolizava bastante. Ele tinha um microfone, com o qual eu brincava de gravar entrevistas, reportagens, bobaginhas assim. Mas ele também “pegava” rádio (só AM, lógico), era um radiogravador, e de vez em quando eu também gravava transmissões radiofônicas.

Não posso afirmar com exatidão, mas deve ter sido assim que gravei uma canção misteriosa, cantada num dialeto estranho e incompreensível, que eu simplesmente adorava, inicialmente com um certo sentimento de culpa ou vergonha, por achá-la bem bizarra – instrumentos de sonoridade esquisita, vocais estridentes, ritmo quase tribal… para a minha sensibilidade musical infantil e inexperiente, ela tinha algo de pré-histórico – mas, com o passar dos anos, com nostalgia e afeição auditiva cada vez maiores. Sua melodia e andamento mudavam no meio, a ponto de eu chegar a achar que fossem duas canções emendadas. No final, o locutor dizia: “Questa era la Tammu…”

A fita se desintegrou com o tempo. Ficou só a lembrança da canção e da voz do locutor, truncada no momento em que ia dizer o título. Aquela melodia, aquele canto estranho e gutural, agora, só existiam na minha cabeça. E assim foi durante anos. Décadas. O surgimento da Internet me possibilitou resgatar muitas coisas da minha meninice, por exemplo, a minissérie Pinocchio, de Luigi Comencini, que eu via na TV e que era fiel ao espírito do livro de Carlo Collodi, que não é a fofice guti-guti da versão animada e pasteurizada por Walt Disney, e sim uma apavorante história de terror, cuja finalidade era convencer as crianças das consequências funestas de matar aula (a cena em que Pinocchio e Lucignolo se transformam em burros, no livro, é de gelar o sangue). Apavorante, visceral e por isso mesmo maravilhosa e inesquecível. Mas eu fugi do assunto. O que eu queria dizer era que a Internet não podia me ajudar na busca pela canção misteriosa, porque eu não sabia nada sobre ela e nem era possível (como já fiz outras vezes com sucesso) buscar um trecho da letra no Google para descobrir seu título, autor ou intérprete – porque, como já falei, ela era cantada num dialeto incompreensível.

E assim, várias décadas se passaram, até que recentemente recebi um filme italiano para traduzir (essa é minha profissão, sou tradutor). Uma rápida olhada nas primeiras cenas revelou que se tratava de um exemplo do neo-realismo italiano, gênero que conheço bem pouco. O melhor exemplo desse gênero é o filme “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica, que sempre tive curiosidade de ver e até baixei da Internet há um ou dois anos, mas que estava (virtualmente) juntando poeira numa “pilha” virtual de filmes baixados e ainda não vistos.

Pensei: Não posso ver outro filme do neo-realismo italiano sem antes conhecer esse bendito “Ladrões de Bicicleta” (para as pessoas normais, cabe uma explicação: sou o que os americanos chamam de anal-retentive – por exemplo, quando gosto de um autor, às vezes cismo de ler todos os livros dele em ordem cronológica. Ou então tenho TOC mesmo). Assim motivado, finalmente fiz contato com a obra-prima de De Sica. Magistral, maravilhosa.

Mas por que estou contando isso? Porque numa cena do filme, pai e filho entram numa cantina. Nessa cantina há um grupo tocando música ao vivo. Que música eles estão tocando? A Tammu…!!! Quase caí para trás quando reconheci a melodia e a letra (que, apesar de eu não entender, também ficara gravada na minha memória).

Agora eu tinha um “gancho” para resgatar a canção das águas do Lete que ameaçavam tragá-la. Como esse filme é um dos maiores clássicos do cinema de todos os tempos, muita gente já devia tê-lo analisado à exaustão, quadro por quadro, e aquela canção certamente não teria passado despercebida. Alguém a conhecia. Ia ser difícil (pensei), mas eu ia conseguir.

Meu ponto de partida foi o site IMDB.com, Internet Movie Database, que cataloga filmes, vídeos, seriados e programas de TV do mundo todo. Além de ser bastante completo, o site oferece a possibilidade de criar fóruns individuais de discussão para cada título, e os fóruns dos títulos mais conhecidos, obviamente, são muito movimentados. Depois de localizar a página do filme de De Sica e correr os olhos pela ficha técnica, que no caso de filmes antigos nunca é muito completa, entrei no fórum correspondente e em menos de dois segundos achei um thread iniciado pela pergunta: Alguém sabe o nome do cantor no restaurante? Alguém sabia, e não só deu o nome do cantor, como o nome da canção: Tammurriata Nera!

De posse do precioso título, meu sonho de consumo seguinte era encontrar a versão que eu gravara do rádio, pois obviamente se tratava de uma canção folclórica (eu pensava) e deviam existir inúmeras versões. O melhor lugar para se buscar canções, atualmente, é o Youtube. Rumei para lá, fiz uma busca, e um dos primeiros resultados foi a canção interpretada por um grupo chamado Nuova Compagnia di Canto Popolare (NCCP). Como o nome parecia ser de um grupo folclórico, esse foi o primeiro vídeo que conferi, e para meu estarrecimento, deleite e quase orgasmo auditivo, ERA ELA! Era a canção, a mesma que eu ouvira tantas vezes no gravadorzinho roufenho, digitalmente imortalizada em alta fidelidade, gravada em pedra para a posteridade, eternizada para regozijo das almas sensíveis, resgatada diretamente do olvido para os ouvidos da minha, da sua, da vossa e das futuras gerações! Ó gáudio! Ó júbilo! Ó admirável mundo novo, que possui recursos assim! Bendita memória, bendito bom gosto cinematográfico e bendito transtorno obsessivo-compulsivo, que se aliaram para formar uma sólida ponte entre esse pedaço quase desarvorado da minha infância e minha vetusta e nostálgica (pré-)velhice!

Perdão pelos arroubos vernaculares, mas é que foi muita emoção mesmo. E ainda havia o bônus de finalmente desvendar a enigmática letra. A pessoa que deu o nome da canção no fórum mencionou por alto qual era o tema, e o usuário que postou o vídeo no Youtube teve o cuidado de não só montar um clipe com imagens de época relacionadas ao conteúdo da letra, como também incluí-la na forma de legendas. Mais alguns (poucos) minutos de pesquisa me levaram até a origem da canção, que não era folclórica, muito menos pré-histórica, no fim das contas, e sim um hit regional da época: letra de Edoardo Nicolardi e música de E. A. Mario, ambos autores já consagrados (para se ter uma ideia, Mario é autor do Piave, canção patriótica que se tornou o hino italiano durante a Segunda Guerra). E a letra nem era num dialeto tão obscuro assim: era napolitano mesmo. A história é a seguinte: Nicolardi era diretor administrativo de um hospital de Nápoles no imediato pós-guerra (a Segunda), e nesse hospital ocorreu um fato inusitado – uma garota italiana deu à luz um bebê negro. Todos ficaram espantados com o que de início julgaram ser uma mutação bizarra, mas logo uma explicação mais prosaica veio à tona: os soldados americanos haviam ocupado a península depois da capitulação dos fascistas, e alguns desses soldados eram negros, portanto…

Nicolardi ficou tão impressionado com o fato que, ao chegar em casa, escreveu a letra da canção, que depois ofertou ao seu amigo E. A. Mario para que a musicasse. Esse tipo de sátira não é raro no cancioneiro italiano. Outra obra-prima que todos conhecem e acham ser folclórica e antiquíssima, Funiculí Funiculà, na verdade também é um hit dialetal do passado recente, que conta a história de um amante corneado por sua musa que resolve espairecer passeando no recém-inaugurado “funicolare” (teleférico) da cidade.

Também descobri que a NCCP é conhecidíssima: gravou a versão magistral da minha adorada canção no LP Li Sarracini Adorano Lu Sole, de 1974, e o grupo existe até hoje, com alguns membros originais. Além disso, não é exatamente um grupo folclórico ou regional, mas transita confortavelmente entre o folk, o pop e o rock. Seria o equivalente italiano, mal comparando, de um Nação Zumbi ou, ouso dizer, um Karnak. Quando eu ouvia a canção, imaginava camponeses usando roupas típicas, tocando pandeiros enfeitados com fitas ou sei lá o quê (a propósito, o título da canção significa “Tamborilada Negra” – tammurriata é um tipo de canção acompanhada por pandeiro). Qual não foi minha surpresa quando, buscando vídeos de apresentações ao vivo do grupo na época desse disco, descobri que eles eram, na verdade, uma rapaziada com um visual bem hippie (apesar dos vocais inacreditáveis).

Eu já amava a canção. Depois de finalmente entender a letra, acompanhando-a pela transcrição, captando os nuances saborosos e o ritmo contagiante e melódico do dialeto, depois de me surpreender encontrando nela tantas coisas que meu pai, que Deus o tenha, contava a respeito do sofrido dia-a-dia da guerra vivido do lado inimigo, perdedor, num país do Eixo, oprimido por um tirano lunático e jogado contra os exércitos mais poderosos do mundo – coisas como: as privações, o contrabando de suprimentos trazidos pelos americanos e que representavam verdadeiras riquezas para aqueles camponeses famintos e despossuídos, cigarros, dólares, balas, biscoitos, chocolate, comida, comida, comida, sempre e em toda parte a obsessão pela bendita comida, e no meio da letra até uma abrupta e inusitada citação de Pistol Packin’ Mama, canção americana popularizada por Bing Crosby – depois de tudo isso, aconteceu aquele raro milagre que talvez apenas as memórias auditiva/olfativa/afetiva sejam capazes de produzir: a nostalgia por um lugar ou época que jamais conhecemos.

Bem, se alguém teve a pachorra de ler este memorial até aqui, deve estar curioso(a) para conhecer a canção. Acho improvável que ouvir estes acordes pungentes ao mesmo tempo que se toma conhecimento da ironia, do humor e da poesia acre que transbordam da letra possa produzir o mesmo efeito de carregar um mistério na mente por 40 anos e um dia vê-lo serendipitosamente desvendado de um só golpe. Mas, na esperança de que esta rara joia do passado seja ao menos apreciada em sua beleza bruta e simples, tomei a liberdade de sobrepor minha tradução em português ao belo vídeo que encontrei no Youtube, e aqui ofereço, a quem quiser ouvir, esta fibra da minha alma de criança. Uma coisa positiva (sim! há algo positivo nisto, acredite) que acontece quando nossa vida passa a abranger várias décadas, é que começamos a nos sentir importantes, no sentido mais puro e despretensioso da palavra: somos mais do que um joguete da moda ou das nossas paixões mais imediatas. Nosso contexto não tem só a largura tão valorizada nesta era da informação ao alcance de todos. Ele tem profundidade também. Nós temos história. É essa a sensação que esta canção evoca em mim, e por isso ela me é tão preciosa.

Sinto uma tremenda inveja branca (para combinar com o cromatismo politicamente incorreto do tema) de quem terá a oportunidade de ouvi-la pela primeira vez. Signore e signori, questa era la Tammurriata Nera, di Edoardo Nicolardi ed E. A. Mario, interpretata dalla Nuova Compagnia di Canto Popolare. Buon ascolto.

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comentários
  1. D. Florinda disse:

    Lembro da minha infância como algo nebuloso (já na pré-consciência talvez), mas algumas músicas, muitas das quais inventava letras malucas (no estilo iuarnuou, a diferença é que elas não eram em nenhum dialeto difícil de descobrir elas eram em inglês mesmo rsrsrs e algumas até em português, um exemplo é a menina “tongalante” – tão galante). Mas pensando bem, era tão boa essa fase não muito reflexiva da vida em que saíamos papagaiando tudo o que ouvíamos sem pensar se fazia ou não sentido e sem crises existenciais.
    Hoje quando ouço minha filha cantando o Hino Nacional assim: “Ouviram do Ipiranga a Majestaaaaade”, não tenho vontade de corrigi-la e sim de deixá-la descobrir sozinha e rir muuuuito das coisas e palavras (como “percupada” que eu acho a mais fofa de todas e não corrijo) que falava errado porque esse é o momento de errar e experimentar, afinal a maior preocupação é a cor do lápis de cor pra pintar o nosso desenho né?
    Enfim, enrolei, enrolei, fugi do assunto, deve estar cheio de erros ortográficos e de coesão mas quero dizer que me deliciei com seu texto e muitas músicas me trazem de volta lembranças, aromas e sabores como se estivessem presentes no agora, graças a maravilha da internet. Muito bom!

  2. Adda disse:

    Ich liebte das Bild, und es brachte eine Menge warme Erinnerungen.
    Könnte etwas in Deutsch zu schreiben? Ich würde gerne die Gelegenheit appretiate Ihrer Arbeit haben.

    Danke.
    Adda.

    • Es tut mir leid, aber ich kann nicht sprechen oder auf Deutsch zu schreiben. Ich war in der Lage, Ihren Kommentar zu verstehen (und schreiben diese Antwort) dank Google Translate. Verstehst du Englisch? Ich habe einen Beitrag in englischer Sprache verfasst und ich kann mehr für Sie zu schreiben, wenn Sie es lesen kann!

  3. Meu querido amigo, fui contigo, viajei pelo seu passado e curti bastante o “final feliz” que nos proporcionou. Também tenho esses (des)encontros quando em vez, quando algum lapso adormecido é atingido pelo fogo fosfórico da lembrança. Bela história, mano!…

    • Caríssimo Escobar, obrigado pelas tuas sempre gentis palavras. Queria dizer que acabei recentemente de ler teu vulcânico romance “Antes de Evanescer” (Editora João Scortecci). Eu sempre achei que você deveria dedicar-se mais à prosa, e aí está a prova de que eu tinha razão. Depois vou te escrever e me espichar mais nos comentários sobre essa tua empreitada.

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